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TPC? Sim ou não?

O Trabalho Para Casa, o conhecido “TPC”, é muito utilizado pelos professores de todo o mundo, contudo nem sempre de forma pacífica. Muitas das atitudes contra o TPC (por vezes com ameaças de greve) advêm, não da natureza desta ferramenta educativa, mas de práticas inadequadas (e.g., quantidade excessiva de TPC), habitualmente sustentadas em argumentos frágeis (e.g., mais tempo na tarefa leva sempre a melhores resultados).
O TPC pode ser bastante benéfico para a aprendizagem, autonomia, responsabilidade e sucesso escolar dos alunos quando:

. a frequência é regular;
. a quantidade é adequada;
. é completado pelos alunos de forma autónoma;
. é utilizado para monitorizar a aprendizagem;
. os pais apoiam q.b. (não fazem por);
. os professores providenciam feedback;
. os alunos percebem a utilidade do TPC para a aprendizagem.

Mas também pode ser contraproducente, quando:

. é utilizado como castigo ou substituto da aula;
. a quantidade é excessiva;
. o grau de dificuldade é desajustado (muito difícil ou muito fácil);
. os professores não verificam o seu completamento.

Uma das perguntas que pode surgir é “afinal o que é uma quantidade adequada de TPC?”

Uma quantidade de TPC adequada tem que ter em conta, entre outros fatores, o ano de escolaridade e a disponibilidade dos alunos para o realizar. Não devendo ser utilizada de forma rígida, a literatura sugere uma fórmula para ajudar a estimar a quantidade de TPC (considerando todas as disciplinas): 10 minutos X ano de escolaridade (Van Voorhis, 2011).

A ideia é que o TPC funcione como um “treinador pessoal” da aprendizagem e não como uma fonte de lágrimas e desânimo para os alunos.

Jennifer Cunha, Psicóloga Escolar e da Educação, Investigadora no Grupo Universitário de Investigação em Autorregulação, Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Colaboradora Edy&Co

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O que te move?

 

E pur si muove (no entanto [a terra] se move) – Galileu Galilei.

O que te move? Acabar o curso? Conseguir boas notas? Ser o(a) melhor aluno(a) do curso? Ser reconhecido(a) pelo elevado desempenho?

Adquirir competências para ser um(a) bom/boa profissional? Compreender com profundidade a tua área de estudo?

Que tipo de objetivos defines para ti próprio(a)? Cada um de nós pode mover-se mais pelos aspetos mencionados no primeiro conjunto de questões (objetivos relacionados com o produto) ou mais pelo segundo (objetivos relacionados com o processo e a aprendizagem) ou, ainda, pelos dois. O problema é quando definimos exclusivamente objetivos relacionados com o produto final. É interessante definir a meta final (por exemplo, acabar o curso), contudo, por si só, não é suficiente. Como chegar até lá? Qual o caminho (o processo) para atingir essa meta? Qual a qualidade do teu envolvimento na aprendizagem? A resposta a este tipo de questões depende essencialmente de ti! Depende, por exemplo, da tua frequência às aulas, da tua preparação prévia para uma aula, da atenção e participação ativa nas aulas, das estratégias que utilizas para estudar, se optas por estudar de forma mais profunda (analisar de forma crítica diversos materiais para compreender um determinado tópico) ou superficial (foco nos mínimos, por exemplo, lendo apenas os powerpoints das aulas). Esta caminhada é dura e, por vezes, surgem diversos obstáculos (por exemplo, a carga de trabalho é demasiado elevada, os docentes poderão não providenciar a ajuda ou feedback expectável, os conteúdos poderão não ser tão interessantes como haviam pensado) que interferem com o envolvimento e desempenho. Contudo, não determinam o teu comportamento!

Como Angela Duckworth escreve no seu livro ‘Grit: The power of Perseverance and Passion’, “quando procuramos formas de mudar a nossa situação para melhor, temos hipótese de as encontrar. Quando deixamos de as procurar, partindo do princípio de que não podem ser encontradas, já estamos a garantir que não as encontraremos. Ou como Henry Ford afirmava muitas vezes: “Quer pense que pode ou que não pode…tem razão” (p. 205). Se projetarmos esta premissa para a experiência de um aluno universitário, não nos espantaríamos com as semelhanças. Quantas vezes já pensaram ou ouviram dizer “é isto a Universidade?”, “de que me serve assistir às aulas?”, “nunca mais conseguirei alcançar o mesmo rendimento que tinha no secundário…e esforçava-me menos”, “sinto-me perdido(a) e sozinho(a)”!

Os desafios que acompanham este contexto são, de facto, muitíssimos e variados. A diferença reside na forma como cada um encara os sabores e dissabores desta jornada. Há quem encare as dificuldades e os fracassos como novos desafios a superar, acreditando que o seu esforço e foco constantes permitirão alcançar os objetivos pretendidos; como também há quem desanime perante as contradições e ausência de progresso, deixando-se dominar frequentemente por um discurso interno derrotista (“nunca conseguirei”). Todos nós podemos olhar para as dificuldades com “lentes de desafio ou de ameaça”. Que lentes escolhes usar? Talvez possamos todos aprender algo com a perseverança e a paixão de Galileu pelo conhecer.

 

JENNIFER CUNHA E RITA NUNES
COLABORADORAS EDY&CO
Psicóloga Escolar e da Educação. Investigadora Grupo Universitário de Investigação em Autorregulação, Escola de Psicologia, Universidade do Minho.
Texto Publicado em parceria com a UNIAREA: http://uniarea.com/o-que-te-move/
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De que cor pinto os meus dias?

 

A lenda conta que as diferentes cores da lagoa das Sete Cidades se devem às lágrimas derramadas por uma princesa de olhos azuis e por um pastor de olhos verdes. Amavam-se, mas o mundo não encorajava esse amor. Numa tarde de profunda tristeza, choraram tanto que as suas lágrimas formaram a famosa lagoa. As lágrimas da princesa formaram a zona azul, enquanto a fração verde representa as lágrimas do pastor.
Não obstante o encanto desta lenda, a ecologia desvenda o mistério: as diferentes cores da lagoa são o resultado de diferentes níveis de profundidade e do reflexo das margens circundantes.
Nós, seres humanos, também somos o resultado da nossa profundidade ou superficialidade.
Às vezes, ambicionamos de tal forma o extraordinário que descuidamos a simplicidade dos nossos dias. Contudo, é no nosso quotidiano que conseguimos perceber o quão profundo ou superficial pode ser o nosso olhar. Será que paro para pensar na atitude que adoto perante a minha vida?
Somos o reflexo dos nossos valores, vincados ou voláteis. Somos fruto dos nossos planos, decisões e compromissos, direcionados por nós ou, então, camuflados pelas vozes do mundo.
Quer seja um ‘não’ redondo ao nosso trabalho, uma discussão com os filhos, ou uma proposta de emprego que nos desinstala: tudo nos pode desafiar e impulsionar ou, pelo contrário, ameaçar e bloquear. Dita a nossa vontade que pode ser perseverante ou inconstante.
Mais ou menos; melhor ou pior, todos os dias são novas oportunidades para refletirmos e recomeçarmos naquilo que nos define. Já parou para pensar: de que tons decide pintar a sua vida?

Texto de Rita Nunes, Psicóloga Escolar e da Educação
Investigadora no Grupo Universitário de Investigação em Autorregulação, Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Colaboradora Edy&Co

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A Conquista

Quantas vezes gostaríamos de fazer ou conquistar algo, mas… acabamos por ficar parados? Esse “algo” será impossível ou parece impossível?
A frase da foto, escrita pela mão de uma criança, é fruto da reflexão sobre a forma como devemos planear/pensar os nossos objetivos.
Em primeira instância, é necessário definir o próprio objetivo: “O que quero atingir?” “O que quero melhorar?” Após esta primeira fase essencial, devemos refletir sobre o caminho a percorrer para o alcançar: “Como vou lá chegar?” “O que preciso fazer?”. Tal como o esquilo que sobe um ramo de cada vez para chegar ao topo da árvore, também nós devemos pensar nas etapas intermédias que temos de conquistar até atingirmos o nosso objetivo final. A subida a cada ramo irá “alimentar” o ânimo e providenciar energia para subir os ramos seguintes, de forma a que nos aproximemos cada vez mais do último – o objetivo final.
Ensinar as crianças a elaborarem as perguntas certas, auxilia uma procura estruturada de respostas.
Quais são os “ramos” do teu objetivo?

Raquel Azevedo, Psicóloga Escolar e da Educação, Investigadora no Grupo Universitário de Investigação em Autorregulação, Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Colaboradora Edy&Co

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A Chave da Decisão

 

“Ter desafios é o que faz a vida interessante e superá-los é o que faz a vida ter sentido” (Joshua J. Marine). Ao longo da nossa vida, são inúmeros os desafios e dilemas com que nos deparamos. Regularmente somos confrontados com situações ou problemas aos quais temos de dar resposta. Todos os dias tomamos decisões. O que nos define enquanto pessoas, enquanto agentes e responsáveis pela nossa ação, enquanto seres em interação com os outros é sem dúvida a forma como lidamos com a adversidade, a forma como resolvemos problemas, a forma como tomamos decisões.

Quando pensamos na nossa rotina diária rapidamente nos apercebemos de que fazemos escolhas todos os dias. De manhã, quando acordamos, decidimos se nos levantamos ou não, se vamos ou não à luta (a mais um dia de trabalho), decidimos a roupa que iremos vestir, o que iremos almoçar, entre muitas outras decisões. Mas em que consiste então a tomada de decisão? Teremos nós consciência da forma como tomamos decisões?

A tomada de decisão consiste na seleção de uma opção de solução entre diferentes alternativas identificadas. Assim, entende-se que antes de uma decisão, terá obrigatoriamente de existir uma procura de soluções pois só após a procura de soluções para o problema é que podemos chegar a diferentes alternativas. A este processo de procura de soluções para os problemas dá-se o nome de resolução de problemas. Mas como resolver problemas?

O desafio apresentado na imagem abaixo poderá ajudar-nos a compreender melhor o processo. Então o nosso desafio/problema será descobrir o código que abre o cofre. Como deveremos proceder para descobrir? Como vemos temos algumas pistas que nos ajudarão. Devemos começar por analisar uma a uma, contudo, facilmente percebemos que apenas uma ou algumas das pistas não serão suficientes para descobrir o código. Isto é, só através da conjugação da informação de todas as pistas conseguiremos perceber quais os números que integram o código e as posições possíveis para cada um deles. Neste exemplo do código, assim como na vida, devemos ter em atenção todos os aspetos que a solução envolve para que possamos antecipar e lidar com as consequências que daí podem surgir.

A descoberta do código final, assim como os problemas com que nos deparamos no nosso dia-a-dia são situações desafiantes. No entanto, o processo, isto é, a procura ativa de diferentes soluções, a escolha da solução mais ajustada a cada momento e a cada pessoa, é o verdadeiro desafio que enfrentamos. Por que mais do que tomar uma decisão, é importante que tenhamos convicção de que efetivamente é a melhor decisão a tomar e que, sobretudo, resolve o nosso problema. É esta busca incessante de melhores formas de resolver (os mesmos ou diferentes) problemas que dá verdadeiro sentido ao nosso percurso. É, por isso, importante perceber como pensamos, como tomamos decisões, como resolvemos problemas. Fica então o desafio: Como podemos decifrar o código do nosso processo de decisão?

 

JULIANA MARTINS
COLABORADORA EDY&CO
Psicóloga Escolar e da Educação. Investigadora Grupo Universitário de Investigação em Autorregulação, Escola de Psicologia, Universidade do Minho
(Texto Publicado em Parceria com a UNIAREA: http://uniarea.com/a-chave-da-decisao/